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Criador de V de vingança lamenta decisões de Trump e grafites apagados de SP: É terrível

Ilustrador David Lloyd falou sobre novo presidente dos EUA e sobre o Brexit em entrevista ao G1; britânico vem ao Brasil em abril participar de evento.

O ilustrador britânico David Lloyd marcou seu nome na história dos quadrinhos como um dos criadores de “V de vingança”, em 1982 — e, claro, da icônica máscara de Guy Fawkes usada por seu protagonista. Mesmo anos após ajudar a contar a história de um herói anarquista que luta contra o governo fascista de uma Londres distópica ao lado de Alan Moore, não é de espantar que o artista tenha opiniões fortes contra o governo Trump e contra a saída da Inglaterra da União Europeia.

Autor de um livro de ilustrações sobre São Paulo, Lloyd também lamentou os grafites apagados pela cidade. “Qualquer tipo de destruição de arte é terrível. Nunca deveria acontecer”, diz o artista, em entrevista ao G1. O britânico volta ao país mais uma vez entre os dias 21 e 23 de abril, para participar do Geek & Game Rio Festival, no Rio de Janeiro.

Durante a conversa pelo telefone, na qual pediu desculpas efusivas pela falta da habitual pontualidade britânica — a entrevista começou cerca de 15 minutos atrasada –, Lloyd falou sobre o novo presidente dos EUA, sobre o Brexit, sobre as dificuldades de tocar sua revista digital, “Aces Weekly”, e sobre sua obra mais famosa. Confira abaixo:

“Os EUA têm apenas a si mesmos a culpar por isso. Essas pessoas achavam que ninguém cuidava dos seus interesses e precisavam de alguém que mudasse isso. Trump entrou na cabeça deles.”

G1 – Em uma entrevista em 2016 te perguntaram sobre o Brexit e o senhor falou que estava mais preocupado com o crescimento da direita na Europa. No entanto, isso foi antes da eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Você e Alan Moore criaram “V de vingança” nos anos 1980, quando nenhuma dessas coisas tinham acontecido. Se fossem criá-lo de novo atualmente, o que seria diferente?

David Lloyd – Acho que não mudaríamos muito. A situação de como a sociedade pode ser corrompida é a mesma. Sabe, o modelo que seguimos foi a da Alemanha nos anos 1930, na qual uma população muito deprimida saiu de um estado de hiper inflação e desemprego massivo e procurava por um salvador. Todo sabemos quem eles encontraram. Isso aconteceu porque a sociedade estava estressada e sob pressão e queriam que alguém os salvasse.

Isso, é claro, se relaciona com Trump. Muitos que votaram em Trump são exatamente iguais, fazem parte daquele tipo de população deprimida, assim como a da Alemanha estava. Eles queriam salvação da falta de trabalho e de oportunidades e um cara chega e fala: “Eu vou mudar tudo e melhorar as coisas para todos”. Basicamente foi isso que Trump fez. Ele agradou a pessoas que estavam muito desesperadas e que eram negligenciadas.

E os EUA têm apenas a si mesmos a culpar por isso. Essas pessoas achavam que ninguém cuidava dos seus interesses e precisavam de alguém que mudasse isso. Trump entrou na cabeça deles. Ele fez o que todos os tipos de pessoas parecidas fazem. Usou imigrantes como bodes expiatórios. “Os mexicanos irão roubar seus trabalhos.” É aquela velha história que a direita usa e obviamente é uma pena que isso tenha acontecido.

G1 – E o que o senhor achou das ações tomadas pelo governo de Trump até agora?

David Lloyd – Bem, eu não sou um fã, obviamente. É terrível, mas os EUA são uma democracia e ele ganhou. Quer dizer, ele não ganhou em número de votos, Clinton teve mais votos, mas, no sistema eleitoral americano, ele ganhou. Então temos que aguentar. Quando ele fizer algo inconstitucional, como o banimento, que atualmente está suspenso, o povo protesta.

As pessoas que acreditam em outros ideais irão se opor a ele, sairão às ruas, e isso é bom. Não estamos lidando com um ditador. Ele não vai mandar tropas de choque. É um sistema democrático e, apesar de ele ser o presidente, as pessoas vão protestar. É exatamente igual ao que aconteceu quanto Obama ganhou. O Tea Party saiu às ruas e se tornou muito ativo e então cresceu, se transformando em uma parte muito importante do Partido Republicano. Então todos esses protestos de agora acrescentarão peso à fraca representação dos Democratas.

Eles estão presos com ele por lá, assim como eu estou preso com o Brexit aqui. E as pessoas que votaram pelo Brexit estavam exatamente tão frustradas quanto as pessoas nos EUA. Porque eles foram negligenciados em muitas partes do país. Muitos foram enganados, como se se seus problemas fossem causados por imigrantes. Imigração foi um fator chave no Brexit. E o mesmo pode acontecer em breve na França, infelizmente.

A aritmética da política é muito simples. Estou muito triste pela forma como as coisas estão, mas temos que esperar e ver. Se algo nos incomoda, temos que sair, protestar e mudar as coisas, tentar deixá-las da melhor forma que pudermos. E eu sei da sua situação no Brasil, da corrupção. Vocês têm pessoas assumindo o governo e mudando as regras para se beneficiarem. Não podemos deixá-los se safarem com isso.

David Lloyd ilustrou os grafites da cidade no livro ‘São Paulo’, da série ‘Cidades ilustradas’.

G1 – Em 2006, o senhor ilustrou um livro da série “Cidades Ilustradas”, da editora Casa 21, sobre São Paulo. Como se envolveu com o projeto?

David Lloyd – Eu me envolvi porque o editor, Roberto Ribeiro, me convidou. Acho que ele via a cidade como algo mais arrojado, e acho que foi isso que o fez pensar em mim. Eu estive aí por algumas semanas, dei algumas voltas pela cidade. Fiz uma pesquisa sobre as coisas que vi. Vi o que eu entendi que é a cidade. Tirei muitas fotos e, na hora de fazer o livro, elas basicamente contavam a história. Eu apenas pintei as fotos.

G1 – O que o senhor lembra da cidade?

David Lloyd – É uma cidade como muitas outras cidades. Muitos arranha-céus. Ela cresce e cresce e cresce sem pensar direito. Gostei do povo, mais do que de qualquer outra coisa. Não posso dizer que gostei da cidade em si, mas amei o povo. Porque era um povo muito resistente. E dá uma energia muito legal à cidade, que me lembra de Nova York.

“É insano. O que se pode falar? Qualquer tipo de destruição de arte é terrível. Nunca deveria acontecer. Existem grafiteiros fantásticos em São Paulo.”

G1 – No livro o senhor fala especificamente do grafite na cidade.

David Lloyd – Ah, sim. Com certeza. A cidade está coberta de grafites. Alguns dos melhores grafiteiros são de São Paulo. É fascinante. Arte em si é vibrante em São Paulo.

G1 – O atual prefeito está em meio a uma polêmica com grafiteiros após cobrir alguns murais com tinta cinza.

David Lloyd – Oh, não. É insano. O que se pode falar? Qualquer tipo de destruição de arte é terrível. Nunca deveria acontecer. Existem grafiteiros fantásticos em São Paulo. E, para muitas pessoas, é a única forma com que eles podem se expressar. É a arte das ruas. É muito triste. Cor é lindo. Cinza não é.

A máscara de Guy Fawkes utilizada pelo herói de ‘V de vingança’ foi criada por David Lloyd.

G1 – O senhor criou algo extremamente icônico com a máscara de V. Você se sentiu pressionado, ao longo de sua carreira, por causa disso? A cada projeto você sentia a necessidade de fazer algo tão icônico?

David Lloyd – Eu nunca me senti pressionado. Fico extremamente feliz de ter o efeito que ela tem. Quantos artistas foram tão privilegiados a ponto de se ver nessa posição de fazer algo que não apenas se torna tão importante para as pessoas, mas que se torna algo fora do livro. A máscara tem sua vida própria e isso é extraordinário.

Mas eu nunca pensei: “nossa, eu preciso fazer algo tão bom quanto ela”. O grande benefício de ter feito algo assim, é que ela se torna sua credencial. Cada vez que eu vou fazer algo, eles dizem: “Isso é daquele cara que fez ‘V de vingança’. Isso significa que deve ser bom”. Eu apenas tento fazer meu melhor a cada projeto, mas foi muito bom ter participado disso.

É bem provável que se mantenha relevante. Sabe, há até uma tristeza nisso. O livro descreve uma situação política que nós continuamos vendo. É como uma doença que continua voltando. Acho que talvez tenhamos que continuar lutando toda vez. “V de vingança” se mantém muito saudável ao lembrar as pessoas sobre o que é importante. Tenho muito orgulho dele. Não há desvantagens em ter participado.

G1 – O senhor fundou a “Aces Weekly” em 2012. O que você aprendeu com a experiência até agora? Como isso te influenciou como um artista?

David Lloyd – Bem, me influenciou num sentido em que eu não desenho mais. Meu trabalho agora tem apenas a ver com publicação. Eu comando as coisas, tento conseguir mais assinantes, recrutar novos contribuidores, e tento torná-lo um sucesso, mas é muito difícil. O mercado de quadrinhos digitais originais é muito duro, porque a maior parte das pessoas que leem HQs são apaixonados por papel.

“É como uma doença que continua voltando. Acho que talvez tenhamos que continuar lutando toda vez. ‘V de vingança’ se mantém muito saudável ao lembrar as pessoas sobre o que é importante.”

Sabe, a plataforma digital é uma forma muito boa de atingir um número grande de pessoas. E você conta uma história na tela da mesma forma que que contaríamos no papel. Contamos exatamente da mesma forma. Não brincamos com ela, não a animamos, apenas mudamos a plataforma. É muito mais barato. Não temos custo de impressão, de distribuição, nada disso é um custo necessário, mas continuamos publicando naquela mídia. As facilidades com o digital me atraíram. E honestamente, eu pensei que o apelo dele iria alcançar mais pessoas muito mais rapidamente, mas eu acredito nele, então insisto.

Estamos chegando ao volume 26 agora. São centenas de páginas. Milhares de contribuidores. E mantemos nossa posição. Não estamos onde eu gostaria de estar, mas essa é minha ocupação agora. Eu não desenho mais. Os únicos desenhos que faço regularmente são rascunhos em convenções. Mas não me sinto triste por causa disso. Eu faço algo no qual realmente acredito e não sinto falta de desenhar.

G1 – Entre esses milhares de artistas que contribuíram, existiram muitos brasileiros?

David Lloyd – Ah, sim. Temos brasileiros, temos da Argentina, do Uruguai, de Singapura, de todos os lugares. Entre os brasileiros, temos Manoel Magalhães e Osmarco Valladão, por exemplo.

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